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EarthCode: Cultivando cultura

Criança indígena da tribo Tenonde Pora

Confira a terceira parte das ações do músico australiano Carleton Vaux e da jornalista Renata Freitas, do EarthCode--por um fututo sustentável. Eles conseguiram autorização para conviver com membros da tribo indígena Tenonde Pora, em São Paulo.

Fotos: EarthCode
Por: Por Renata Freitas
Em: 15/03/2010

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Depois de conviver com os membros da tribo indígena Tenonde Pora, localizada no extremo sul da cidade de São Paulo, nos certificamos de termos encontrado aspectos sustentáveis vitais dentro da comunidade: elementos genuínos da cultura indígena que o tempo não se encarregou de apagar.
Seguindo a filosofia do povo indígena norte-americano Iroquois, descrita em ‘Iroquois Confederacy’, em que os chefes devem considerar os impactos de cada decisão tomada por sete gerações futuras, os indígenas brasileiros seguem lutando de uma geração a outra para manterem vivos suas línguas e costumes enquanto convivem com uma civilização colonizadora ‘branca’.

Bem antes da chegada dos portugueses, em 1500, os primeiros habitantes do Brasil viviam em aldeias, nas matas virgens espalhadas pelos quatro cantos do país. Sugere-se que, no século XVI, todo o território brasileiro era ocupado por quatro milhões de nativos pertencendo a mais de mil tribos distintas.

De acordo com o antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (1957), durante a primeira metade do século XX, a população indígena era estimada em cerca de 200 mil. Com uma matemática simples, calcula-se que em somente quatro séculos, os nativos brasileiros sofreram uma perda de 95% da sua população. Hoje, a figura esta mudando. Estudos revelam que desde o começo do século XXI, a maioria das tribos indígenas esta crescendo a uma taxa de aproximadamente 3,5% ao ano.
Antropologistas, demógrafos e profissionais da saúde questionam se o crescimento populacional é resultado da demarcação territorial, melhor acesso a assistência medica e alta taxa de natalidade ou se o motivo trata-se de uma recuperação demográfica consciente.

Filosofia em pratica
Descartando especulações, ainda há tempo de os povos indígenas brasileiros colocarem em pratica a filosofia dos conterrâneos norte-americanos. Tenonde Pora, uma das três tribos Guarani localizadas na cidade de São Paulo, tem seguido uma ética similar. E, para que EarthCode pudesse entrar e documentar a rica cultura da comunidade, múltiplos telefonemas e conversas por e-mail foram trocados. Depois de uma visita inicial e um longo papo com um embaixador da tribo, um
período de convivência foi finalmente organizado para nós.

Mochilas arrumadas, equipamentos testados e uma carona arranjada. Nós chegamos! Mas, não foi tão simples. Nossa honestidade, integridade e intenção tiveram todas que ser provadas durante duas longas horas em uma reunião onde estávamos sentados a meia-lua com o Cacique Timoteo Vera Popygua e dois outros lideres da aldeia.

Quando a reunião acabou, o dia já havia cedido lugar a noite e, mesmo sem saber ao certo se poderíamos ficar na aldeia por mais tempo, nos acomodaram em uma casa vazia para repousarmos. Não sabíamos se receberíamos a aprovação final para desbravar mais a cultura local até a manhã seguinte.

Co-co-ri-có
Nós acordamos com o nascer do sol, ao canto do galo. Depois de preparar e imprimir um documento contendo nossa intenção com a comunidade, nós estávamos preparados para falar novamente com o cacique. O contrato foi lido e assinado por todos nós. Com isso, nosso passaporte para dentro do dia a dia da comunidade foi metaforicamente estampado.

Tenonde Pora é a maior aldeia indígena da etnia Guarani da cidade de São Paulo. A comunidade foi formada em meados dos anos 1930 por um grupo composto por seis famílias. Depois de 1960, mais e mais membros dessa que seria uma grande família foram chegando de várias regiões de dentro e fora do Brasil. O atual cacique é exemplo dessa migração. Timoteo chegou do Paraná, em 1983, para viver em uma área demarcada e homologada poucos anos mais tarde, em 1987. Hoje, a aldeia possui, aproximadamente, 120 famílias e compartilha um espaço de 26 ha com uma população de 700 pessoas.

Em uma tarde chuvosa, perto do fim da nossa estada, o Cacique Timoteo sentou-se conosco para nos explicar mais sobre a cultura Guarani difundida entre Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia e Uruguai. “Tradicionalmente, os Guaranis não tinham caciques para governar as tribosâ€, diz. E continua: “Nossos líderes sempre foram os pajés. Eles são nossos conselheiros e guias espirituaisâ€.

Ele também nos explicou que o termo cacique foi criado pelos jeruas para nomear a pessoa responsável para representar a tribo fora das suas fronteiras. Jerua literalmente significa ‘boca com cabelo’ e faz-se referencia a barba e bigode dos conquistadores europeus. Hoje, jerua é genericamente utilizado para se referir a todas as pessoas não-indígenas (Ladeira, 1992).
Como cacique da aldeia Tenonde Pora, sua maior responsabilidade com a comunidade é manter certeza de que os direitos dos cidadãos indígenas sejam respeitados. Ele também diz que ser representante é uma oportunidade de agir como porta-voz de sua cultura e tradições.

“Cultura é aquilo que a gente cultiva. Os Guaranis tem um conhecimento milenar. Nossa sabedoria, assim como nossos costumes e nossa língua, é passada de geração em geração pelos nossos parentesâ€.

Esses aspectos culturais puderam ser claramente vistos por nos durante a semana que passamos por lá. Além de receber visitas constantes dos nossos vizinhos – uma linda família com dons artísticos –, nossa casa estava sempre cheia: ora por crianças curiosas, outrora por adolescentes cheios de segredos. Fomos à escola, localizada dentro da aldeia, e falamos sobre sustentabilidade com os alunos. Passeamos pela Mata Atlântica, vimos flores lindas e animais exóticos. Participamos dos rituais religiosos na Casa de Reza e vivenciamos a rica cultura Guarani. Uma experiência e tanto!

 
Confira as ações anteriores publicadas na Vitaplena:

1. EarthCode: aventureiros em busca de um futuro sustentável
http://www.vitaplena.com.br/social/earthcode-aventureiros-busca-futuro-sustentavel

2. EarthCode: Lixo que não é mais lixo
http://www.vitaplena.com.br/social/earthcode-lixo-que-nao-e-mais-lixo

3. EarthCode: Um dia como Carroceiro
http://www.vitaplena.com.br/social/earthcode-um-dia-como-carroceiro

  • A jornalista Renata Freitas conversa com o Cacique Timoteo Vera Popygua
  • Desafios para chegar tribo indígena Tenonde Pora
  • Símbolo indígena
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